A SOCIEDADE QUE VESTE A FRALDA

A discriminação feita a pessoas neurologicamente diferentes nasce, muitas vezes, da necessidade de descarregar nos outros aquilo que, também, nos frustra psicologicamente. Como exemplo dessa frustração: - A gasolina está cara? Então a culpa é “dos árabes”!
- O meu colega trabalhou a vida inteira para comprar uma casa e nunca conseguiu? Não trabalhou o suficiente!
Independentemente da situação, a discriminação será sempre um ato de auto-sabotagem - por parte da vítima e do agressor - porque ao compararmos as nossas dificuldades com as dos outros estamos, a dizer interiormente que o único motivo para insultar não é inveja, é o facto do outro ser diferente. Ou porque é ruivo, ou porque é do Norte ou outra qualquer diferença que só se vê numa primeira observação.
No final fica a frustração do agressor e a dor na vítima (que já se condena interiormente). A situação é tão dolorosa como ganhar o Euromilhões e perder o bilhete no bolso das calças que foram para a máquina de lavar na sexta-feira, ou porque se foi beber uns copos e já não se sabe onde colocou o boletim. No fim, a discriminação só atinge o alvo porque faz coro com uma certa auto-condenação das vítima de discriminação por serem pessoas neurologicamente diferentes, mas, na realidade, atinge mais o próprio agressor, pois está a tocar num problema que também tem em doses diferentes.
No entanto isso não significa que devemos fazer o inverso e fingir que todos somos iguais em tudo. É verdade que uns podem ser mais aptos ou ter mais facilidade em certas coisas do que outros. O que não tira mérito a quem se esforça mais para ser socialmente aceite. O valor de lutar no modo difícil da vida prova que, no final, a discriminação é só uma frase de efeito no Instagram ou uma dancinha no tiktok, porque não só não acrescenta nada como também prejudica quem é discriminado. A pessoa neurologicamente diferente pensa: “Desisto, porque não valho nada, então os outros também não valem NADA!”. E isso é perigoso porque entramos num ciclo de guerra permanente, igual ao conflito Israel versus Palestina onde há mortos e feridos, mas não há vencedores. Uma guerra em loop é isso que a discriminação é.
Uma das grandes diferenças é quando uma pessoa dita “normal” olha para uma parede branca, vê apenas o óbvio, mas uma pessoa com autismo repara nos detalhes que ninguém veria a olho nu. O autista apercebe-se que a parede é áspera ou macia, se está seca ou tem manchas de humidade, se precisa de ser pintada, vai aos mínimos detalhes. Para as pessoas neurologicamente maioritárias, ditos “normais” esses detalhes não importam muito. A diferença é como viver com uma grande perceção de todos os pormenores ou deixarmos escapar grande parte do que se passa à nossa volta. Um autista vive constantemente hiperestimulado. Grande parte dos “tiques”, silêncios e ações que parecem estranhas aos ditos “normais” deve-se a uma tentativa de resolução interior que os autistas têm.
Voltando à imagem, para um autista, a diferença de se aperceber dos pormenores e não se aperceber é como “viver numa casa bonita e viver num caixote de lixo”. Os autistas consideram que é preferível deixar as paredes arranjadas, ou perceber tudo o que se passa à sua volta. Mas infelizmente não é assim que a grande maioria pensa. Pessoas com autismo são detalhistas e muito sinceras, porque o autismo não deixa ser de outra forma. É com essa atenção e sinceridade que elogiam. Por outro lado a sociedade responde com: “Tu estás a dizer que vivo no lixo?”. Quando o autista quer apenas dizer: “eu só quero ajudar-te a arrumar a sala…porque reparo em todos os mais ínfimos pormenores”.
“Será uma ofensa tão grande ter a casa arrumada? Será que a maioria das pessoas preferem viver sem se aperceber do que está à sua volta?” - É assim que um autista pensa.
As pessoas olham para os autistas como pessoas rudes, deficientes ou gente estranha e imprevisível. Quando na realidade os autistas são pessoas hipersensíveis, que poderiam ajudar muitas vidas ou apenas ajudar uma idosa a levar o saco das compras.
Esses atos de altruísmo deveriam ser reconhecidos, em vez disso são recebidos como criancices. Os autistas ainda são vistos como alguém a quem se deve dar uma chupeta da Nenuco escrito “cala-te!”. Essas atitudes de exclusão direta ou indiretamente fazem a sociedade excluir pessoas tão capazes quanto qualquer pessoa neurologicamente normal.
Se a intenção é descarregar as frustrações num autista, a melhor maneira de discriminar é tratá-los como bebés de fralda. Se, por outro lado, a intenção é lutar contra a discriminação então é tratar um autista com o “coração aberto”, sem maldade e com amor fraternal, porque os autistas são hiperestimulados e sentem quando a pessoa não está a ser completamente sincera.
No final das contas, a justiça escreve direito por linhas tortas, que nem um guião dos filmes da Marvel, porque, no fim, é a sociedade que acaba a vestir a fralda. Excluir pessoas com autismo não é apenas mais uma forma de discriminação, é um ato de cobardia que afasta membros essenciais, capazes de fazer uma diferença enorme para o bem da sociedade.
Radicos
15/05/2026
