A VIDA SEXUAL DA MISOGINIA

Há discriminações que se gritam na rua e outras que vivem escondidas no silêncio. Não são faladas, não são discutidas, são ignoradas, transformadas em tabu. E talvez seja exatamente por isso que continuam tão vivas. Porque quanto menos se fala sobre desigualdade, mais ela cresce disfarçada de piada, tradição ou “opinião”. Curiosamente, quanto maior é a discriminação e o controlo sobre a liberdade feminina, maior parece ser também o consumo de pornografia e a obsessão social pelo corpo da mulher.
A sociedade condena a sexualidade feminina em público, mas consome-a em privado como entretenimento. Vivemos numa época com cada vez mais pornografia, mais exposição sexual e mais consumo do corpo feminino, mas continua a existir um desconforto quase medieval quando uma mulher decide viver a própria sexualidade sem pedir autorização moral ao resto do mundo.
À séculos que a humanidade tenta responder a grandes questões: de onde viemos, para onde vamos, e porque raio um homem com várias mulheres é um garanhão, mas uma mulher com vários homens é automaticamente promovida a “mulher da vida”, sem sequer passar pelo período experimental.
A verdade é que a desigualdade de género não começou há dois dias, não foi inventada pelo tiktok, muito menos pelos avós que dizem “no meu tempo é que era”. Na realidade isto vem de épocas muito recuadas não aconteceu de um dia para o outro, em que a sociedade acordou e decidiu que o corpo da mulher deveria ser tratado como um portal demoníaco, enquanto o do homem deveria ser algo libertador e natural. Coitado do homem, sempre visto como um animal selvagem, incapaz de resistir aos seus instintos.
Existe sempre uma desculpa, se ele tem várias mulheres a culpa não é dele, é da testosterona, do destino, da lua cheia, do signo solar, do vento norte. Já a mulher, se ousa ter a mesma liberdade, é imediatamente diagnosticada com “falta de valores”, “falta de vergonha” e, ocasionalmente, “falta de pai presente”.
É curioso, pois quando um homem tem muitas parceiras, dizem que ele “conquista", quando uma mulher tem muitos parceiros, dizem que ela “se entrega”, ele é considerado D. Sancho I com o cognome de O Povoador. Enquanto a mulher é vista como uma caixa de comentários em que toda a gente acha que tem direito a entrar e a dizer as maiores baboseiras.
Depois perguntam porque é que ainda existe desigualdade, mas a sociedade adora manter tabus onde floresce a desigualdade. Assuntos que não se falam como o sexo podem manter a desigualdade escondida. E assim um homem pode continuar a ser garanhão, conquistador, sedutor, no reino animal seria um lobo, tigre, leão. Já a mulher recebe imediatamente a coleção completa da quinta pedagógica: vaca, galinha, cabra, cadela. Até no reino animal a desigualdade é berrante.
Mas a parte mais engraçada é que esta lógica não tem qualquer base científica, moral ou sequer lógica. Não há estudos que digam: “mulheres com vida sexual ativa provocam inflação”. Pelo contrário, o que realmente causa danos são as desigualdades de género, menos oportunidades, salários mais baixos, mais violência, mais julgamento social e uma sociedade que continua mais preocupada em controlar mulheres do que em respeitá-las.
No entanto, continuamos presos a estes velhos truques sociais para controlar a mulher enquanto se aplaude o homem. Talvez esteja na altura de atualizar o software cultural, porque claramente ainda estamos a funcionar com uma versão do século XV cheia de bugs e misoginia integrada. Talvez a verdadeira pergunta não seja “porque é que chamam puta a uma mulher com vários homens?”, mas sim: “porque é que ainda aceitamos que a liberdade sexual masculina seja vista como poder e a feminina como escândalo?”
No fundo, a desigualdade de género só continua viva porque dá menos trabalho do que pensar. É preguiça mental com séculos de prática embrulhada em tabu. Mas a verdade é simples, ninguém perde nada quando as mulheres ganham liberdade, só perde quem sempre viveu do privilégio de as controlar. E se isso incomoda, talvez o problema não seja a liberdade delas, mas a insegurança deles. Até lá, continuaremos a viver nesta trágica comédia involuntária chamada sociedade, onde o machismo é tradição e o progresso é opcional. Talvez ajude a mudar esta situação quando se fala abertamente sobre o sexo. Fazendo com que as ideias de cada um possam ser realmente questionadas sem qualquer tabu.
Isis
15/05/2026
