OPERAÇÃO “ASSALTO LEGALIZADO” AOS TRABALHADORES

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Se lhe levarem a carteira na Baixa de Coimbra, é assalto. Se o Estado lhe tirar o dinheiro via Diário da República, chama-se "adiantamento fiscal". É a magia do Artigo 102.º do Código do IRS, que obriga os trabalhadores independentes a três pagamentos por conta (Julho, Setembro e Dezembro). Na cidade dos estudantes, isto funciona como uma praxe violenta: um empréstimo forçado ao Governo, sem juros, sob pena de multa e sem direito a recurso na Via Latina.

A piada faz-se sozinha, num tom tão melancólico como o fado de Coimbra, quando olhamos para os dados do Eurostat: quase um terço (32,4%) dos recibos verdes em Portugal vive em risco de pobreza. Conseguimos uma vergonhosa medalha de prata europeia, superados apenas pela Roménia. Portugal teima em manter-se no top 10 da UE com mais trabalhadores pobres. É a este grupo vulnerável — muitos deles doutorados e licenciados pela Universidade de Coimbra que ficaram pela cidade a prestar serviços — que o Estado exige impostos adiantados, ignorando se o que ganham chega para pagar um quarto na Alta.

 

A "Quebra Costas" dos Falsos Independentes

Para piorar, o INE deita por terra o mito do "empreendedorismo" e das startups inovadoras ao revelar o drama dos falsos recibos verdes: mais de 104 mil trabalhadores por conta própria dependem economicamente de um único cliente (que representa mais de 75% dos seus rendimentos). São funcionários com deveres de subordinação, mas sem subsídios de férias, Natal ou proteção no desemprego. Subir a Ladeira da Quebra Costas com duas malas de cartão é uma brincadeira de crianças comparado com o esforço hercúleo destes profissionais para equilibrarem o orçamento familiar.

A hipocrisia atinge o topo com a Segurança Social. Quando o Governo aumenta o salário mínimo com pompa e circunstância, o que está secretamente a fazer é aumentar a base de cálculo que obriga o trabalhador independente a descontar mais, mesmo que o seu rendimento real seja microscópico.

 

Velhos para a República, Novos para a Reforma

Se fizermos a pergunta óbvia nas esplanadas da Praça da República: «Se os recibos verdes são um inferno, porque não procuram um emprego estável por conta de outrem?», a resposta está no preconceito do mercado de trabalho. Em Portugal, atingir os 38 anos de idade tornou-se um crime biológico corporativo.

O profissional é considerado demasiado velho para ser contratado pelas empresas (que preferem estagiários sub-remunerados de vinte anos saídos frescos da Faculdade), mas é manifestamente demasiado novo para se reformar e ir ver o Mondego passar.

Resta o trabalho independente, não como uma escolha liberal e meritocrática, mas como a única alternativa à fome ou à dependência humilhante do erário público. E para aceder a apoios sociais mínimos, o Estado exige quase que a pessoa prove estar a dormir nos bancos do novo centro de saúde em frente à segurança social (na avenida Fernão de Magalhães), transformando a sobrevivência num exercício ultrajante de perda de dignidade.

A Sátira da Lei Fundamental

O Artigo 1.º da Constituição da República Portuguesa afirma solenemente que Portugal é uma República «baseada na dignidade da pessoa humana (...) e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária». Olhando para a realidade dos recibos verdes, a Lei Fundamental parece mais um guião escrito numa noite de excessos da Queima das Fitas ou uma piada de humor negro de uma companhia de teatro académico.

A conclusão deixa a pergunta ecoar desde a Torre da Universidade até ao final da margem Esquerda: no topo das prioridades reais do Estado Português, estará o bem-estar dos cidadãos e a retenção do talento que Coimbra forma, ou a manutenção de uma máquina burocrática de assalto fiscal legalizado?

 

JAG

31-07-2026