UMA AUDITORIA AO MITO DE SALAZAR

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Há mitos que ficam colados à mentalidade popular, mas que não correspondem à verdade. O mais resiliente da nossa portugalidade é o da "honestidade” dita quase “franciscana" de António de Oliveira Salazar.

A narrativa, alimentada pela propaganda e replicada comoventemente até por inimigos históricos, onde até Mário Soares chegou a garantir na televisão que: «Fui sempre inimigo de Salazar. O meu pai foi também inimigo de Salazar. Lutámos sempre contra o Salazar, mas… teve uma virtude, é que nunca mexeu nos dinheiros públicos. E isso é extremamente importante!» Este tipo de afirmação infundada apenas serve para alimentar o saudosismo cego à ditadura do Estado Novo.

Contudo, uma consulta aos arquivos e investigações históricas recentes sugerem que o milagre da multiplicação do pão não era bem o que parecia: ele não roubava o erário público, simplesmente mudou-se para dentro dele.

 

O Rebelde de Coimbra

A propensão de Salazar para a incompreensão das regras vigentes não começou em São Bento. Recuemos a 1919. O jovem e austero professor de Direito da Universidade de Coimbra foi formalmente processado pelas autoridades da Primeira República, sob a grave acusação de fazer propaganda monárquica em plena aula. O homem que mais tarde passaria quarenta anos a dizer que a forma de Estado era "secundária" começou a sua carreira oficial a responder em tribunal por excesso de zelo ideológico nos claustros. Um detalhe delicioso para quem, décadas depois, transformaria qualquer dissidência universitária num bilhete só de ida para Peniche.

 

Uma Miséria com Teto Pago e Conta Bancária

Se é factual que Salazar não operava nos moldes dos ditadores das "malas de dinheiro" ou dos desvios diretos para contas secretas na Suíça, a tese do governante que "morreu pobre" esbarra na contabilidade pragmática. Registos financeiros revelados recentemente pela revista Sábado demonstram que, à data da sua morte, o ditador detinha o equivalente atual a cerca de 113 mil euros depositados no banco, complementados por uma sólida carteira pessoal de ouro, prata, casas e terrenos.

Como se acumula tal pecúlio com um ordenado público? Aplicando a máxima da boa gestão doméstica, naturalmente: não gastando um único cêntimo do próprio bolso. Durante 31 anos, Salazar usufruiu de uma residência oficial com despesas totalmente suportadas pelo Estado Português. À sua inteira disposição particular — e para a gestão das suas propriedades privadas — estavam motoristas, criados e funcionários públicos.

 

O cúmulo do "Estado Social de um homem só" atingiu o auge nos seus últimos anos de vida: já afastado do poder por incapacidade médica, a estrutura privada de apoio médico e os tratamentos clínicos continuaram a ser faturados, com bonomia, ao erário público. Salazar não usava o dinheiro do Estado; deixava que o Estado fosse o seu cartão de crédito ilimitado.

 

O Capitalismo de Cunha: A Corrupção que Não Deixava Rasto

A grande ilusão do Estado Novo foi convencer o povo de que a ausência de escândalos equivalia à ausência de corrupção. No Sistema Corporativo salazarista, a trafulha não era uma questão de assalto ao banco, mas sim de arquitetura social.

  • · O Monopólio Amigo: A corrupção operava por via dos favores administrativos. Atribuíam-se licenças industriais exclusivas, garantiam-se monopólios de mercado e faziam-se nomeações de conveniência para os aliados mais fiéis ao regime.
  • · A Teia de Interesses: As grandes famílias financeiras e os grandes conglomerados económicos da época apoiavam a cadeira do ditador com devoção. Em troca, o Estado Novo garantia que nenhuma concorrência externa ou interna ousaria beliscar os seus impérios protegidos.
  • · O Lápis Azul do Branqueamento: Se alguma engrenagem desta teia falhasse e houvesse má gestão, entrava em cena a Secretaria Nacional de Informação. A Censura barrava de forma implacável qualquer notícia sobre abusos de poder. Na falta de jornais livres para investigar, o regime autoproclamava-se o mais honesto do mundo.

 

Conclusão: O "Salazar" da Cozinha Financeira

A conduta pessoal de Salazar mantinha o verniz da austeridade e do rigor orçamental. Mas governar um país mantendo os cidadãos na miséria enquanto o próprio quotidiano — da sopa aos tratamentos de saúde de luxo — é integralmente financiado pelo imposto desses mesmos cidadãos não é pobreza: é privilégio institucionalizado.

Salazar pode não ter enriquecido o indivíduo "António", mas garantiu que a ditadura pagasse o banquete da sua existência. O mito do "ditador pobrezinho" é, afinal, apenas a primeira grande operação de marketing político de um regime que controlava o guião, os atores e, acima de tudo, o silêncio da plateia. Um silêncio criminoso que escondia casos de uma crueldade absoluta, como se veio a descobrir com o escândalo do “Ballet Rose”, onde raparigas menores apanhadas na pobreza extrema eram violadas e abusadas sexualmente pela “nata” da sociedade e por altos quadros do governo, da banca e das corporações. Não podemos, nem devêssemos nunca, camuflar a força brutal de uma ditadura contra os mais frágeis.

 

Sofia Dantas
31 de Julho de 2026