COIMBRA - A CIDADE DO POTENCIAL PERDIDO

Coimbra é aquela amiga brilhante que todos dizem que “vai longe”, mas que continua sentada no sofá à espera que o destino lhe bata à porta com um plano estratégico em PDF. E o destino, cansado, já foi para a Figueira da Foz passar férias.
A cidade tem tudo para ser grande: história, conhecimento, património, estudantes, rio, colinas, nevoeiro matinal com assinatura própria. Mas falta-lhe uma pequena coisa: vontade de acontecer.
A hotelaria que não existe (mas devia mandar postais).
Quando surge um grande evento, Coimbra entusiasma-se, veste a melhor capa académica, abre os braços… e depois percebe que não tem onde pôr as pessoas a dormir. Resultado?
- A Figueira da Foz agradece.
- O Bussaco sorri com elegância florestal.
E Coimbra fica com o barulho dos aplausos… mas não com as receitas. É como organizar um casamento e descobrir, no próprio dia, que afinal não há mesas nem cadeiras. Mas há boa vontade — e isso, como sabemos, não paga contas.
A economia ao sabor do vento (e o vento muda muito na Lusa Atenas). O concelho vive numa espécie de economia meteorológica: quando sopra vento norte, fala-se em inovação; quando sopra vento sul, fala-se em turismo; quando não sopra vento nenhum, fala-se em nada.
Não há plano económico. Não há foco. Não há bússola. Há apenas um leve “vamos vendo”, que é sempre o prelúdio de um “não aconteceu”.
O ensino e o conhecimento, pode ser, um tesouro sem mapa. A Universidade de Coimbra é um vulcão de saber. Mas ninguém sabe que lava queremos aproveitar. Será saúde? Será tecnologia? Será social? Será aeroespacial? Será tudo ao mesmo tempo? Será nada, desde que não seja “guardar museus”?
A cidade tem um dos maiores centros de conhecimento do país… mas continua a tratá-lo como um baú fechado, sem chave e sem manual de instruções. Elites ou classe média? Esta é a pergunta que ninguém quer fazer.
Na minha opinião, Coimbra vive num dilema existencial digno de Sófocles ( pai do teatro trágico): -Deve apostar na criação de elites, como sempre fez? Ou deve fazer como Braga e tornar-se a capital da classe média qualificada, com habitação acessível, serviços eficientes e vida urbana vibrante?
A resposta continua perdida no vento — o mesmo vento que decide a economia.
E enquanto não se decide, constroem-se casas que não servem nem elites nem classe média. Servem apenas o mercado, esse ser mitológico que aparece sempre que falta visão.
Turismo, também, é um plano invisível. Coimbra tem património UNESCO, mas não se nota. Apesar de Coimbra ter um Património Mundial da UNESCO. A classificação "Universidade de Coimbra – Alta e Sofia" foi atribuída em Junho de 2013, abrangendo a universidade histórica, a zona da Alta e a histórica Rua da Sofia, demonstra que tem multiculturalidade histórica, mas está guardada numa gaveta. Basta ver o estado destas zonas.
Tem gastronomia, mas não divulga um prato, ou doce, icónico que faça alguém dizer: “Vou a Coimbra comer... (algo que não encontro fora da cidade)”.
Mas já quanto a eventos internacionais, aparecem como cogumelos: muitos, avulsos, sem ligação, sem narrativa, sem estratégia. A oferta cultural, coitada, continua submersa no Convento de São Francisco, à espera que alguém a venha resgatar com um plano de mergulho, ou melhor - gestão.
Conclusão: Coimbra precisa de um rumo. De um foco. De um objetivo que não seja apenas sobreviver ao nevoeiro que teima em defender a sua imagem consistente com a sua cultura.
Porque potencial não falta. O que falta é transformar potencial em realidade — antes que a Figueira, o Buçaco, Aveiro, Viseu e até Leiria enviem um postal a dizer: “Obrigado por continuares a não aproveitar as oportunidades. Assinado: as cidades que lucram com a tua indecisão.”
“A ambição é o último refúgio do fracasso.”
Oscar Wilde
Otávio Ferreira
